Wednesday, 22 October 2008

Saudades...

Viena, 22 de Outubro de 2008


Hoje apercebi-me da falta que me fazes... Cada vez que vejo uma criança acompanhada pela sua mãe, vêm-me as lágrimas aos olhos. E ouvir a tua voz ao telefone é como ouvir a voz de um anjo. Porque, afinal de contas, apesar da distância, não deixas de ser o meu anjo da guarda...
O negrume das palavras não ditas é o pior. O curto tempo de que disposmos ao telemóvel não passa de uma alegria de 3 minutos. 3 minutos. O que é isso comparado a dois meses atrás, quando te podia dizer tudo o que me ia na alma e não disse dez por cento daquilo que sentia e ainda sinto. E nem sequer fui ainda capaz de te enviar o postal... sim, escrevi um postal para vocês... é bonito, conseguem ver um dos palácios vienenses. Espero que gostem dele.
Porquê hoje, por que escrevo estas palavras precisamente hoje? Porque... já combinámos que nos íamos ver tantas vezes e... ainda não nos vimos. É preciso azar...
Ouvi a fatal melancolia na tua voz. Estiveste a chorar, sei-o tão bem como quem sabe que um mais um são dois. Não queria magoar-te... Não suporto essa voz triste, é abominável escutá-la. Desculpa, desculpa, desculpa, mas preciso destes meses aqui... Quero estar aqui. Mas isso não significa que não queira estar aí. Não quer dizer que não te adoro.
No fundo, ainda sou uma criança. E uma extremamente dependente, no tocante a sentimentos. Consigo passar horas sem tocar em comida, mas céus! Sem sentimentos, sem o teu amor, o teu amor de mãe, não duraria mais do que meros minutos. O desgosto diário por que tenho de passar por não te poder ver... não fazes ideia. Não és a única a sofrer nesta espécie de simbiose invertida.
A minha dor é de dimensões absurdas. Qualquer um à minha volta consegue senti-la. Qualquer criatura pode tocar-lhe, vê-la, ouvi-la, respirá-la e... sentir-lhe o gosto, um gosto um tanto macabro.
Mãe! Quero dedicar-te um poema. É do meu poeta preferido, tu sabes quem é.

« No plaino abandonado
Que a morna brisa aquece,
De balas trespassado-
Duas, de lado a lado-,
Jaz morto, e arrefece.

Raia-lhe a farda o sangue.
De braços estendidos,
Alvo, louro, exangue,
Fita com olhar langue
E cego os céus perdidos.

Tão jovem! Que jovem era!
(agora que idade tem?)
Filho único, a mãe lhe dera
Um nome e o mantivera:
«O menino de sua mãe.»

Caiu-lhe da algibeira
A cigarreira breve.
Dera-lhe a mãe. Está inteira
E boa a cigarreira.
Ele é que já não serve.

De outra algibeira, alada
Ponta a roçar o solo,
A brancura embainhada
De um lenço… deu-lho a criada
Velha que o trouxe ao colo.

Lá longe, em casa, há a prece:
“Que volte cedo, e bem!”
(Malhas que o Império tece!)
Jaz morto e apodrece
O menino da sua mãe »


a tua melguinha...

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