Monday, 15 September 2008

Poema Sem Nome


Dobram os sinos duas vezes
A dor que dói em mim.
Dão-se dramas dados
A quem os quer digerir.

São dadas dores dramatizadas
A dados de jogar há muito gastos
Pelo uso destas mãos doridas.
De que jogo? Já não sei...

A tinta das pintas já fintam
O fim nos seus vacilantes contornos.
Está na hora de terminar este jogo
Há muito terminado, mas nunca iniciado.

Sigo com afinco a luz ténue
Que entra pela janela.
Tenta evadir-se da realidade, lá fora.
(O dia revela o que a noite eufemizou).

Em breve, o manto negro cairá novamente
Sobre a vista que tenho sobre a rua
Que desce a correr com pressa a estrada
Do nada que nunca passou disso. De um nada.

Pequenos nadas que, por vezes,
São tudo o que mais à vida interessa.
À vida de quem? Não sei. Mas não à de ninguém.
Vivo a vida veementemente como quem está para partir.

Respiro a pleno o ar
Que me entra a pleno
Pelos pulmões, passeando
Pelo parque, partindo...

De onde? Para onde?
Perguntas cuja resposta
Me é vedada. Por quem?
Talvez por mim mesmo.

Por vezes, só, junto à lareira,
Interrogo-me onde deixei ficar
A alma que nunca habitou
O corpo que nunca tive.

Aquece o espírito, o fogo,
No pino do inverno.
As chamas crepitantes estalam
Amarelo, laranja e vermelho.

Dor? Minha? Dos outros?
Não, não a sinto.
Esqueci-me do que é sentir.
Do que é que me esqueci?

Verba volant, scripta manent,
Mas as minhas palavras não.
O registo dos meus devaneios
Aspirantes a poesia não permanecem.

Não hoje.
Nem amanhã.
Talvez noutro dia.
Que não um destes 365.


15 de Setembro de 2008

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